O que é culto ?
O que é culto?
Fundamentos bíblicos e teológicos da adoração e suas implicações para a vida da igreja
Por Marcelo Neles
Resumo
Este artigo examina o conceito de culto cristão a partir do vocabulário bíblico, de textos-chave do Antigo e do Novo Testamento e de categorias da teologia sistemática. Argumenta-se que o culto é, fundamentalmente, a resposta reverente e alegre do povo de Deus à revelação de quem Ele é e ao que realizou em Cristo. A análise dos termos hebraicos ʿăḇôdâ e hištaḥăwâ e dos termos gregos latreia, proskyneō e leitourgia mostra que a Escritura reúne adoração, serviço e prostração em um mesmo campo semântico. A leitura de Romanos 12.1 evidencia que o culto abrange a entrega da existência inteira, sem diminuir a importância da assembleia reunida. O texto conclui com implicações ministeriais para a catequese, o planejamento litúrgico e a formação de líderes, propondo que a igreja distinga o culto como reunião do culto na vida diária, sem separá-los.
Palavras-chave: culto cristão; adoração; liturgia; Romanos 12.1; teologia bíblica; ministério pastoral.
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Abstract
This article examines the Christian understanding of worship through biblical vocabulary, key Old and New Testament texts, and categories of systematic theology. It argues that worship is fundamentally the reverent and joyful response of God’s people to the revelation of who He is and to what He has done in Christ. A study of the Hebrew terms ʿăḇôdâ and hištaḥăwâ and the Greek terms latreia, proskyneō and leitourgia shows that Scripture joins adoration, service and prostration within a single semantic field. A reading of Romans 12.1 shows that worship encompasses the offering of the whole of life without diminishing the importance of the gathered assembly. The article closes with ministerial implications for catechesis, liturgical planning and leadership formation, proposing that the church distinguish worship as gathering from worship in daily life without separating them.
Keywords: Christian worship; liturgy; Romans 12.1; biblical theology; pastoral ministry.
1 INTRODUÇÃO
Poucas palavras são tão usadas, e tão pouco definidas, na vida das igrejas quanto “culto”. No Brasil, o termo designa a reunião dominical (“culto de domingo”), mas “adoração” costuma ser reservada, na fala popular, ao bloco de cânticos mais lentos que antecede a pregação, como se o restante do encontro fosse outra coisa. Ao mesmo tempo, muitos cristãos ouvem que “a vida inteira é culto”, sem clareza sobre o que isso significa para a reunião semanal. Essas imprecisões não são meramente semânticas: elas moldam expectativas, práticas e, em última análise, a própria piedade do povo de Deus.
A palavra portuguesa “culto” vem do latim cultus, ligada ao verbo colere, que significa cultivar, cuidar, honrar, da mesma família de “cultivar” e “cultura”. A etimologia sugere algo valioso, um cuidado devotado e uma reverência cultivada, mas não substitui o exame da Escritura. Por isso, a pergunta deste artigo é bíblica antes de ser linguística: o que a Bíblia entende por culto?
A tese aqui defendida é que o culto é a resposta reverente e alegre do povo de Deus à revelação de quem Ele é e ao que fez em Cristo, resposta que se expressa tanto na assembleia reunida quanto na existência diária. Para sustentá-la, o texto procede em quatro movimentos: (1) examina o vocabulário bíblico do culto; (2) analisa Romanos 12.1 como texto central; (3) desenvolve fundamentos teológicos; e (4) discute a relação entre reunião e vida, concluindo com implicações ministeriais.
Nota sobre citações: salvo indicação em contrário, as citações bíblicas são paráfrases ou traduções livres a partir dos textos originais, e a numeração de capítulos e versículos segue a das versões em português.
2 O VOCABULÁRIO BÍBLICO DO CULTO
A Bíblia não possui uma única palavra para “culto”. Há um conjunto de termos, cada qual iluminando uma faceta da relação entre Deus e o seu povo. Convém, porém, uma cautela metodológica: o sentido de um termo depende do contexto em que aparece, e não se deve projetar sobre cada ocorrência todos os significados possíveis da palavra (BARR, 1961). Feita a ressalva, é possível identificar linhas semânticas expressivas.
2.1 Hebraico: servir e prostrar-se
O verbo ʿāḇad (עבד) e o substantivo ʿăḇôdâ (עבודה) estão entre os principais termos para designar serviço. Podem descrever o trabalho na terra (Gn 2.15), a servidão imposta aos hebreus no Egito (Êx 1.14) e o serviço prestado a Deus (Êx 3.12). Essa amplitude é reveladora. No Êxodo, a mesma raiz aparece nos dois polos do drama: o povo serve ao faraó e é chamado a servir ao Senhor. O pedido repetido diante de faraó, “deixa ir o meu povo, para que me sirva” (cf. Êx 4.23; 7.16), mostra que a libertação tem como propósito o culto. Israel não é libertado para uma neutralidade sem senhor, mas para servir ao Deus que o redimiu (cf. Js 24.14-15).
O serviço a Deus, contudo, não é sombrio. O salmista convoca: “Sirvam ao Senhor com alegria” (Sl 100.2); e em outro lugar une temor e júbilo: “Sirvam ao Senhor com temor e exultem com tremor” (Sl 2.11). Já se antecipa aqui a ideia central deste artigo: reverência e alegria não são polos concorrentes, mas dimensões inseparáveis de um mesmo serviço.
O segundo verbo fundamental é hištaḥăwâ (השתחוה), geralmente traduzido por “adorar” ou “prostrar-se”. Descreve uma postura corporal de reverência: curvar-se até o chão diante de um superior. Abraão o emprega ao subir ao monte com Isaque (Gn 22.5), Moisés ao ouvir a proclamação do nome divino (Êx 34.8) e o salmista ao convocar o povo: “Venham, adoremos e prostremo-nos” (Sl 95.6). O mesmo verbo é usado também em gestos de cortesia diante de seres humanos (Gn 23.7); é o objeto e o contexto que determinam se se trata de simples deferência ou de adoração propriamente dita (KOEHLER; BAUMGARTNER, 1994-2000).
2.2 Grego: servir, prostrar-se e ministrar
No Novo Testamento, o vocabulário grego retoma e desenvolve essas linhas. O verbo latreuō (λατρεύω) e o substantivo latreia (λατρεία) designam serviço religioso prestado a Deus, especialmente no âmbito das obrigações rituais (BAUER et al., 2000). Na Septuaginta, esses termos traduzem com frequência o hebraico ʿāḇad quando o serviço tem Deus por objeto (STRATHMANN, 1967), o que explica a continuidade entre os dois Testamentos. Paulo usa latreia para os privilégios de Israel (Rm 9.4) e para a entrega da vida inteira (Rm 12.1); afirma que os verdadeiros servos de Deus são os que o servem pelo Espírito (Fp 3.3); e Hebreus exorta a servir a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor (Hb 12.28).
O verbo proskyneō (προσκυνέω) exprime o gesto de prostrar-se, prestar homenagem, reconhecer a majestade de alguém (BAUER et al., 2000). É o gesto dos magos diante do menino (Mt 2.11), do cego curado que confessa sua fé em Jesus (Jo 9.38) e dos anciãos diante do trono (Ap 4.10). É também o verbo que Jesus emprega ao declarar que o Pai procura adoradores “em espírito e em verdade” (Jo 4.23-24). Ao rechaçar o tentador, Jesus combina os dois verbos centrais: ao Senhor, seu Deus, “adorarás” (proskyneō) e só a Ele “servirás” (latreuō) (Mt 4.10, citando Dt 6.13). Adoração e serviço são duas faces de uma só lealdade.
Um terceiro termo é leitourgia (λειτουργία), de onde vem “liturgia”. No mundo grego, designava o serviço público prestado em benefício da comunidade; no contexto bíblico, passou a designar o ministério sacerdotal (Lc 1.23; Hb 8.2; 10.11). O uso neotestamentário, porém, é notavelmente amplo: em At 13.2, a igreja de Antioquia “ministrava ao Senhor” (leitourgountōn) em jejum; em Rm 15.16, Paulo descreve seu trabalho missionário em linguagem sacerdotal; e em Rm 15.27 e 2Co 9.12 o termo alcança a coleta em favor dos pobres de Jerusalém. Liturgia, portanto, não é apenas rito: é serviço que inclui a misericórdia concreta.
Por fim, Tiago emprega thrēskeia (θρησκεία), que designa a prática religiosa externa, para afirmar que a religião pura e imaculada consiste em cuidar de órfãos e viúvas em suas aflições e em guardar-se da corrupção do mundo (Tg 1.26-27).
2.3 Síntese do vocabulário
Quadro 1 – Principais termos bíblicos do culto
| Termo | Sentido básico | Ênfase | Textos ilustrativos |
|---|---|---|---|
| ʿāḇad / ʿăḇôdâ (hebraico) | Servir, trabalhar; serviço prestado a Deus | Serviço e obediência | Êx 3.12; Sl 100.2; Js 24.15 |
| hištaḥăwâ (hebraico) | Prostrar-se, curvar-se | Reverência e submissão | Gn 22.5; Êx 34.8; Sl 95.6 |
| latreia / latreuō (grego) | Serviço religioso, culto | Serviço consagrado a Deus | Rm 12.1; Fp 3.3; Hb 12.28 |
| proskyneō (grego) | Prostrar-se, prestar homenagem | Reconhecimento da majestade | Mt 4.10; Jo 4.23-24; Ap 4.10 |
| leitourgia (grego) | Serviço público em favor do povo | Ministério sacerdotal e solidário | At 13.2; Rm 15.16,27; Hb 8.2 |
| thrēskeia (grego) | Prática religiosa exterior | Expressão concreta da fé | Tg 1.26-27 |
Fonte: elaborado pelo autor.
Três conclusões emergem desse levantamento. Primeiro, o culto bíblico é relacional: dirige-se a Deus como Senhor, em reverência e gratidão. Segundo, é ativo: envolve serviço, obediência e ação, e não somente contemplação. Terceiro, é abrangente: no uso cristão, esses termos não se restringem à reunião comunitária nem a uma categoria específica de atividades.
3 ROMANOS 12.1: O CULTO RACIONAL
“Portanto, irmãos, tendo em vista as misericórdias de Deus, eu os exorto a apresentarem o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Este é o culto racional de vocês.” (Rm 12.1, tradução livre)
Romanos 12.1 é o texto mais citado quando se afirma que “a vida inteira é culto”. Vale lê-lo em seu contexto e atentar para cada um de seus elementos.
O fundamento: as misericórdias de Deus. O “portanto” (oun) liga o versículo a onze capítulos de exposição do evangelho, que tratam do pecado, da justificação, da união com Cristo, da vida no Espírito, da eleição e da esperança de Israel, e à doxologia de 11.33-36, que termina afirmando que dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas. O culto de 12.1 é, portanto, resposta à graça, e não meio de conquistá-la (MOO, 1996; STOTT, 1994).
O ato: apresentar. O verbo paristēmi (na forma parastēsai) pertence ao vocabulário de oferta e apresentação de sacrifícios, mas Paulo já o usara em Romanos 6.13, 16 e 19 para a consagração dos membros do corpo a Deus como instrumentos de justiça. Culto é, assim, consagração ativa e deliberada.
O objeto: os corpos. Em Paulo, sōma não se reduz ao aspecto físico; designa a pessoa inteira em sua existência concreta, com suas relações, tarefas e limitações (DUNN, 1988; MOO, 1996). Oferecer o corpo é oferecer o trabalho, a família, os recursos, o tempo, tudo o que somos no mundo real.
A qualidade: sacrifício vivo, santo e agradável. A linguagem é cultual, mas há uma inversão significativa: os sacrifícios da antiga aliança eram imolados; agora o sacrifício é vivo. Como Cristo ofereceu o sacrifício expiatório definitivo (Hb 10.10-14), o que resta ao crente não é oferecer propiciação, mas apresentar-se em gratidão.
A descrição: culto racional. A expressão grega logikēn latreian admite traduções diversas, como “racional”, “razoável” ou “espiritual”, e os comentaristas discutem qual nuance predomina (DUNN, 1988; MOO, 1996). Em qualquer delas, o ponto é que o culto agradável a Deus não se esgota em gestos exteriores: envolve mente, vontade e afetos, e é coerente com o que Deus fez em Cristo. O versículo seguinte confirma essa direção, ao falar da transformação pela renovação da mente (Rm 12.2).
O desdobramento: uma ética comunitária. Nos capítulos seguintes, Paulo desce aos detalhes: o uso dos dons no corpo de Cristo, o amor sem hipocrisia, a hospitalidade, a bênção aos perseguidores, a submissão às autoridades, o acolhimento dos fracos na fé (Rm 12–15). Nada disso é um apêndice ético: é o culto racional em ação. E, no fim da carta, Paulo apresenta seu próprio ministério do evangelho como serviço sacerdotal, com os gentios convertidos como oferta agradável a Deus (Rm 15.16).
Romanos 12.1 não trata diretamente da reunião comunitária; o que faz é ampliar o horizonte do culto. O texto afirma que nenhum território da vida está fora da jurisdição do culto e, por isso mesmo, o culto reunido não pode ser um evento sem relação com a vida.
4 FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS
4.1 O culto começa em Deus: revelação e resposta
Um traço estrutural une as grandes cenas de culto da Escritura: Deus toma a iniciativa e o povo responde. No Sinai, o Senhor primeiro liberta, apresentando-se como o Deus que tirou Israel do Egito (Êx 20.2), e só então dá a lei e ordena o culto (Êx 19–20). Em Isaías 6, o profeta vê a santidade divina, confessa a sua impureza, recebe purificação e responde: “eis-me aqui”. Em João 4.23, é o Pai quem “procura” adoradores. O culto, portanto, não é uma técnica humana para alcançar Deus, mas a resposta ao Deus que se dá a conhecer (ALLMEN, 1965).
Essa estrutura dialogal, em que Deus fala e age e o povo responde, tem consequências importantes. Ela protege o culto de tornar-se centrado no ser humano, em suas emoções ou em sua criatividade, e protege também de reduzi-lo a formalismo, pois a resposta exigida é a do coração. A tradição reformada resumiu a finalidade da vida humana como “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre” (Breve Catecismo de Westminster, pergunta 1): glorificar (reverência) e gozar (alegria) são dimensões de uma mesma resposta. Webber (1994) acrescenta que o culto cristão faz memória e celebra os atos salvíficos de Deus, sobretudo a morte e a ressurreição de Cristo; o culto é sempre narrativo, pois conta e encena a história da redenção.
4.2 O culto é trinitário e cristológico
O culto cristão é dirigido ao Pai, realizado por meio do Filho e capacitado pelo Espírito. Efésios 2.18 sintetiza essa moldura: por meio de Cristo, judeus e gentios têm acesso ao Pai em um só Espírito. Por isso o culto cristão não é uma aproximação incerta, mas um acesso garantido pela graça.
Pelo Filho. Hebreus apresenta Jesus como o sumo sacerdote e “ministro” (leitourgos) do santuário verdadeiro (Hb 8.1-2), cujo sacrifício único torna desnecessário qualquer outro (Hb 10.10-14) e abre o caminho para que o povo se aproxime com confiança (Hb 4.14-16; 10.19-22). O sacrifício de louvor e as boas obras são oferecidos “por meio dEle” (Hb 13.15-16). O Antigo Testamento é lido, assim, como sombra e preparação, e Cristo como cumprimento (PETERSON, 1992).
No Espírito. Paulo identifica os verdadeiros adoradores como os que servem a Deus pelo Espírito (Fp 3.3). É o Espírito que testifica que somos filhos e nos faz clamar “Aba, Pai” (Rm 8.15), e que intercede em nossa fraqueza (Rm 8.26). Em João 4.24, muitos intérpretes veem referência à obra do Espírito e à revelação da verdade em Cristo (CARSON, 1991; MORRIS, 1995), de modo que a adoração aceitável não depende de um lugar sagrado, seja o monte Gerizim ou Jerusalém, mas da pessoa de Cristo e da obra do Espírito.
A moldura trinitária protege o culto de distorções: sem Cristo, perdem-se o evangelho e o acesso ao Pai; sem o Espírito, o culto degenera em formalismo; sem a Palavra, em subjetivismo.
4.3 O culto é comunitário e escatológico
O Novo Testamento aplica ao povo de Deus, em conjunto, a linguagem do templo e do sacerdócio: a igreja é “casa espiritual” e “sacerdócio santo”, chamada a oferecer sacrifícios espirituais (1Pe 2.5) e a proclamar as virtudes daquele que a chamou (1Pe 2.9). O culto é, pois, ação de todo o povo, e não espetáculo apresentado por especialistas a espectadores.
Ao mesmo tempo, a reunião local participa de uma realidade maior. Hebreus 12.22-24 diz que os crentes se aproximaram do monte Sião, da cidade do Deus vivo, de incontáveis anjos e da assembleia dos primogênitos; e o Apocalipse mostra a adoração celeste centrada no Cordeiro (Ap 4–5), com os servos de Deus a servi-lo (latreuō) dia e noite (Ap 7.15; 22.3). O culto da igreja na terra é, assim, participação e antecipação: já ensaia o que será plenitude na presença de Deus.
5 REUNIÃO E VIDA: UMA TENSÃO A SER PRESERVADA
Se o culto abrange toda a vida, qual é o lugar da reunião? E, se a reunião é central, o que dizer do culto diário? A Escritura mantém as duas afirmações em tensão fecunda. Dois erros opostos a ameaçam.
5.1 Primeiro erro: reduzir o culto à reunião
Os profetas denunciam um culto que se satisfaz com a forma. Deus declara detestar as festas e solenidades de Israel quando acompanhadas de injustiça (Is 1.10-17; Am 5.21-24), e Miqueias resume o que o Senhor requer: praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o seu Deus (Mq 6.6-8). Oseias registra que Deus deseja amor leal mais que sacrifícios (Os 6.6). Os profetas não rejeitam o culto, que o próprio Deus instituiu, mas o culto desvinculado da obediência. Tiago faz eco: a religiosidade que não refreia a língua nem socorre o necessitado é vazia (Tg 1.26-27).
5.2 Segundo erro: dissolver a reunião na vida
No polo oposto, há quem, a partir do princípio de que “tudo é culto”, considere secundária a assembleia. Peterson (1992) chamou a atenção para o fato de que, no Novo Testamento, o vocabulário do culto é aplicado predominantemente à vida inteira do crente, e de que a reunião é descrita sobretudo em termos de edificação mútua (1Co 14.26; Ef 4.11-16; Hb 10.24-25). A observação é valiosa: previne contra a equiparação entre culto e música, ou entre culto e emoção.
Contudo, o mesmo Novo Testamento mostra a igreja reunindo-se de forma regular e intencional para o ensino, a comunhão, a Ceia e as orações (At 2.42), para cantar com gratidão (Cl 3.16), para ouvir a Palavra lida e pregada (1Tm 4.13) e para experimentar a presença de Deus no meio de si (1Co 14.25). Frame (1996) e os ensaios reunidos por Carson (2002) defendem, com nuances, que o culto comunitário tem lugar próprio e exige reflexão bíblica cuidadosa; Frame, por exemplo, distingue sentidos mais amplos e mais restritos do termo “adoração”. A reunião é o momento em que o povo se reconhece como povo, ouve a voz do seu Senhor e responde em conjunto.
5.3 Síntese: distinguir sem separar
A solução não é escolher entre as duas dimensões, mas compreender como se relacionam. A reunião é o momento focal em que o povo de Deus se apresenta coletivamente diante dEle, ouve a sua Palavra e responde; a vida diária é a extensão desse mesmo culto ao cotidiano. A reunião alimenta e interpreta a vida: o que ouvimos, cantamos e celebramos dá forma ao que somos nos demais dias da semana. E a vida fornece matéria à reunião: o trabalho, o sofrimento, a gratidão e o arrependimento da semana são trazidos ao Senhor. Hebreus 13.15-16 mostra essa reciprocidade: o sacrifício de louvor dos lábios e a prática do bem e da partilha são oferecidos juntos, e com tais sacrifícios Deus se agrada.
Quadro 2 – Culto como reunião e culto como vida diária
| Dimensão | Culto como reunião | Culto como vida diária |
|---|---|---|
| Natureza | Assembleia do povo de Deus, convocada para ouvir, responder e ser edificada | Entrega de todo o ser e de todas as relações a Deus no cotidiano |
| Textos-chave | At 2.42; 1Co 14.26; Cl 3.16; Hb 10.24-25 | Rm 12.1; 1Co 10.31; Cl 3.17,23; Hb 13.15-16 |
| Expressões | Palavra, oração, cânticos, ordenanças, oferta e bênção | Trabalho, família, generosidade, justiça e testemunho |
| Risco quando isolado | Ritualismo, formalismo e espetáculo | Individualismo e esvaziamento da assembleia |
| Fruto esperado | Formação, unidade e louvor conjunto | Coerência, serviço e missão |
Fonte: elaborado pelo autor.
6 IMPLICAÇÕES MINISTERIAIS
A reflexão bíblica e teológica precisa desaguar em prática pastoral. Cinco implicações merecem destaque.
6.1 Ensinar o vocabulário do culto
O modo como a igreja fala molda o modo como ela pensa. Chamar de “momento de adoração” apenas o bloco musical sugere, sem dizer, que oração, leitura bíblica, pregação, Ceia e oferta são atividades de outra natureza. Recomenda-se usar “culto” para o conjunto da reunião e entender “adoração” como a atitude que perpassa tudo, do cântico à pregação, da oferta ao silêncio. Uma série de estudos ou de sermões sobre o culto, dirigida à igreja toda, é uma forma eficaz de corrigir o vocabulário e a teologia subjacente.
6.2 Planejar a liturgia com perguntas teológicas
Como o culto é diálogo entre Deus e o seu povo, o planejamento litúrgico pode partir de duas perguntas: O que Deus diz e faz neste momento? e Como o povo responde? Chamado à adoração, confissão de pecados, leitura bíblica, pregação, Ceia, oração, oferta, cânticos e bênção deixam de ser blocos a preencher e passam a ter função clara na narrativa do culto. Isso não exige uniformidade: tradições diferentes organizam a liturgia de formas diversas e legítimas, desde que preservem o conteúdo evangélico e a participação de todos, “com decência e ordem” (1Co 14.40).
6.3 Conectar o domingo à semana
Se o culto é a oferta da vida inteira, a igreja deve ajudar seus membros a perceber isso. Alguns caminhos: uma bênção final e um envio que apontem para a missão cotidiana; uma pregação que relacione o texto à vocação, ao trabalho e às relações (1Co 10.31; Cl 3.17,23); testemunhos e intercessão pelas realidades da semana; e ministérios de misericórdia compreendidos como expressão da leitourgia (2Co 9.12; Hb 13.16). O discipulado deve tratar o trabalho, o dinheiro, a família e a cidadania como campos de culto.
6.4 Formar servos, não estrelas
Quem dirige cânticos, lê as Escrituras, prega, recepciona ou opera o som exerce leitourgia: serviço em favor do povo, e não performance diante de uma plateia. A formação das equipes deve incluir teologia do culto, critérios bíblicos para a escolha de repertório e de mensagens e o cultivo de caráter e comunhão, não apenas habilidade técnica. O objetivo é a edificação do corpo (1Co 14.26) e a glória de Deus.
6.5 Acolher todo o povo de Deus
Se o culto é do povo, o povo todo deve poder participar dele: crianças, idosos, pessoas com deficiência, visitantes, enlutados, pessoas em sofrimento. Isso implica linguagem compreensível, acessibilidade física, espaço para lamento e não apenas para celebração (o Saltério contém numerosos salmos de lamento) e um cuidado pastoral que reconheça que nem todos chegam ao culto no mesmo estado de alma.
6.6 Perguntas para reflexão
- Como a minha igreja costuma usar as palavras “culto” e “adoração”? Que teologia esse vocabulário comunica?
- Em nossa liturgia, fica claro o que Deus diz e faz e como o povo responde?
- De que modo a pregação e a bênção final conectam o culto de domingo à vida na segunda-feira?
- Como preparar e cuidar de quem exerce ministérios no culto para que se vejam como servos?
- Quem, em nossa comunidade, tem mais dificuldade de participar do culto, e o que podemos fazer a respeito?
7 CONCLUSÃO
Na perspectiva bíblica, culto é a resposta reverente e alegre do povo de Deus à revelação de quem Ele é e ao que fez em Cristo. O vocabulário do Antigo e do Novo Testamento une adoração, serviço e prostração; Romanos 12.1 mostra que essa resposta envolve a existência inteira; e a teologia bíblica revela que ela é iniciada por Deus, mediada por Cristo, capacitada pelo Espírito, vivida em comunidade e orientada para a consumação.
Daí decorre a tarefa ministerial: ensinar a igreja a distinguir o culto (a reunião) do culto na vida diária, sem separar um do outro. Onde a reunião é reduzida a ritual, a vida fica sem forma; onde a vida é tudo, a reunião perde o seu centro. Quando ambos se articulam, a igreja aprende a viver, de segunda a domingo, para a glória daquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9). Soli Deo gloria.
REFERÊNCIAS
ALLMEN, J.-J. von. Worship: its theology and practice. London: Lutterworth Press, 1965.
ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. Breve Catecismo de Westminster. 1647.
BARR, J. The semantics of biblical language. Oxford: Oxford University Press, 1961.
BAUER, W.; DANKER, F. W.; ARNDT, W. F.; GINGRICH, F. W. A Greek-English lexicon of the New Testament and other early Christian literature. 3. ed. Chicago: University of Chicago Press, 2000.
CARSON, D. A. The Gospel according to John. Leicester: Inter-Varsity Press; Grand Rapids: Eerdmans, 1991.
CARSON, D. A. (Ed.). Worship by the book. Grand Rapids: Zondervan, 2002.
DUNN, J. D. G. Romans 9–16. Dallas: Word Books, 1988. (Word Biblical Commentary, v. 38B).
FRAME, J. M. Worship in spirit and truth. Phillipsburg: P&R Publishing, 1996.
KOEHLER, L.; BAUMGARTNER, W. The Hebrew and Aramaic lexicon of the Old Testament. Leiden: Brill, 1994-2000. 5 v.
MOO, D. J. The Epistle to the Romans. Grand Rapids: Eerdmans, 1996. (New International Commentary on the New Testament).
MORRIS, L. The Gospel according to John. Ed. rev. Grand Rapids: Eerdmans, 1995. (New International Commentary on the New Testament).
PETERSON, D. Engaging with God: a biblical theology of worship. Leicester: Apollos; Downers Grove: InterVarsity Press, 1992.
STOTT, J. R. W. The message of Romans. Leicester: Inter-Varsity Press, 1994. (The Bible Speaks Today).
STRATHMANN, H. Latreúō, latreía. In: KITTEL, G.; FRIEDRICH, G. (Ed.). Theological dictionary of the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1967. v. 4.
WEBBER, R. E. Worship old and new. Ed. rev. Grand Rapids: Zondervan, 1994.
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